CHAMADA DE ARTIGOS / CALL FOR PAPERS (CFP) - REVISTA ECO-PÓS 2022

2021-12-13

O Choque dos Acontecimentos: Retórica e Política das Comoções Públicas (v. 25, n. 2, 2022)

Uma nova abordagem científica dos fenômenos sensíveis redefiniu a comoção, em meados do século XIX, como um processo psicofisiológico cujo substrato orgânico era o sistema nervoso. Firmou-se, então, uma diferença conceitual que se integrou ao nosso hábito linguístico: de um lado, as “emoções suaves”, as “emoções propriamente ditas”, que se manifestam apenas por um movimento moderado de pensamentos ou de sentimentos; do outro lado, as “emoções fortes” ou “comoções”, movimentos vigorosos estabelecidos pelo “choque dos acontecimentos” — “a agitação que se produz em nós, quando testemunhamos alguma catástrofe ou algum crime, o abalo que nos domina, quando apreendemos um evento grave que mudará o nosso destino ou o de nosso país”, como sintetizou o filósofo Eugène Maillet, no seu De l’essence des passions: étude psychologique et morale (MAILLET, 1877, p. 119). O esforço enérgico para enfrentar perigos repentinamente revelados nem sempre era bem-sucedido: em presença do fato impactante, o sujeito podia ficar “estupefato” e permanecer “petrificado”, escondendo, sob a aparente rigidez, um “veemente conflito de movimentos internos e pensamentos desordenados” (idem, p. 123).

Na linguagem metafórica dos cronistas políticos, por sua vez, comoção servia para designar preocupantes agitações no interior do corpo social — quer dizer, do corpo imaginário que figurava a sociedade inteira, representada como um organismo vivo, constituído por várias partes e sistemas interligados que podiam entrar em colapso ou sofrer convulsão. As comoções públicas — alertavam os representantes da lei e da ordem — eram capazes de suscitar mudanças repentinas e drásticas na condição das nações, suprimindo seu vigor e sua lucidez, tal qual acontecia com os sujeitos mais impressionáveis. A reiterada analogia patologizante deslegitimava o agravamento da insatisfação popular e as demonstrações coletivas de inconformismo, excluindo a “ralé” do domínio da manifestação política sensata.

Mas a expressão convencional comoção pública nem sempre aparecia como sinônimo de conturbações políticas e de tumultos sociais que punham em risco a permanência das estruturas de poder e ameaçavam a coesão nacional. Em vez de evocar a comunicabilidade vertiginosa de paixões beligerantes, o sintagma sugeria, em certos casos, a acelerada difusão de sentimentos ternos — uma corrente emocional propícia para unificar uma região ou até mesmo o país inteiro. Após o falecimento de figuras de proa da cultura ou da política, por exemplo, era comum alegar-se que uma mesma dor conectava, subitamente, todos os cidadãos — “A dor aqui é brasileira”, salientou a propósito Machado de Assis, ao comentar a repercussão da morte de Carlos Gomes, perda que trouxera à tona um “sentimento de unidade nacional”, comovendo “desde o chefe do Estado até o mais singelo cidadão” (Gazeta de Notícias, “A Semana”, 20 de setembro de 1896, p. 1). A triste novidade fora divulgada, prontamente, por um dos principais instrumentos da comoção nacional: o telégrafo, “invenção que põe o nosso século tão longe daqueles em que as notícias tinham de correr os riscos das tormentas e vir devagar como o tempo anda para os curiosos” (idem, ibidem).

O objetivo deste Dossiê é reunir artigos originais, traduções e entrevistas que abordem as estratégias retóricas, os procedimentos narrativos e os recursos tecnológicos acionados por diferentes artefatos midiáticos com o intuito de fomentar, expandir ou desqualificar comoções públicas, emergentes em variados contextos históricos. Também serão bem-vindas análises da parcialidade ou da seletividade da comoção em episódios de abalo moral ou de luto coletivo (ocasiões em que se presume, geralmente, que toda a nação ou todo o planeta esteja irmanado na mesma dor e na mesma revolta).

Editor: João Freire Filho (UFRJ)
Prazo para submissões: 10 de junho de 2022

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Chamada para artigos - Etnografias da mídia e do digital (v. 25. n.3, 2022)

Os estudos sobre a mídia têm uma longa tradição na América Latina e uma vasta produção no campo da comunicação. Nas últimas décadas o interesse pelos meios de comunicação e pelo universo digital a partir de outras áreas de pesquisa se expandiu, incluindo a antropologia. No entanto, ainda são escassas as investigações que focam na perspectiva dos atores - como a etnografia propõe -, seja ela sobre a produção e suas rotinas ou sobre as audiências na vida cotidiana.

Por outro lado, a emergência, a proliferação e a presença constante das mídias digitais no cotidiano trouxeram outras questões que colocam novos desafios para a pesquisa etnográfica. Se no início dos estudos sobre a Internet era recorrente a distinção entre o “virtual” e o “real”, essa separação foi se desfazendo e as perguntas sobre o que as pessoas de fato fazem com e nas mídias sociais emergiram e também levantaram novas questões sobre o “estar lá” da etnografia. Ela oferece formas distintas de estudar os meios de comunicação e entender as experiências e as relações dos indivíduos com a mídia na era digital.

Sabemos que as práticas midiáticas estão profundamente enraizadas no tecido social e na vida cotidiana. Nesse contexto, o debate sobre as contribuições que a etnografia pode trazer para os estudos das mídias de comunicação e das redes sociais é muito relevante. Embora os meios tecnológicos e suas infraestruturas tenham alcance global, é necessário compreender os consumidores ou usuários através do filtro da experiência local. 

Nas últimas três décadas cresceu a produção de investigações sobre o campo da comunicação em uma perspectiva antropológica com estudos sobre os jornais e suas rotinas de produção; as etnografias de audiência, especialmente de rádio e televisão; as investigações sobre o mundo digital realizadas a partir de aplicativos como Instagram e Facebook, sites de busca de parceiros amorosos e sites políticos de distintas vertentes, entre outros. Assim como se ampliou também a produção editorial sobre o tema com o lançamento de livros autorais e coletâneas de artigos de diversos pesquisadores nesta interseção comunicação- antropologia.

Para este número da Revista Eco-Pós são bem-vindos artigos, resenhas e entrevistas que explorem os principais debates em torno da etnografia da mídia e do digital. A partir de uma perspectiva etnográfica como recurso teórico-metodológico, interessam os trabalhos que analisem as mídias em seu aspecto relacional, que considerem os pontos de vista e a lógica dos atores sociais nela envolvidos e também artigos que reflitam sobre o conceito de etnografia e o fazer etnográfico. 

Portanto, a proposta deste dossiê é reunir artigos que discutam as relações entre a antropologia e a comunicação se detendo nas especificidades de cada uma das áreas, assim como etnografias que problematizem ou não a presença do pesquisador no campo comunicacional e os seus modos de “estar lá”.

 Assim, a proposta deste dossiê é receber artigos que abordem os seguintes temas:

  • Estudos sobre a produção de jornais, de programas de rádio, de televisão, sites e páginas da internet que sejam resultado de pesquisas etnográficas.
  • Etnografias de recepção e as diversas metodologias utilizadas - quantitativas e qualitativas - e suas particularidades.
  • Investigações sobre as mídias alternativas e o seu papel político e social no contexto da globalização.
  • Etnografias do e sobre o digital: plataformas, conteúdos, usuários e seus respectivos campos.
  • Pesquisas que tenham a imprensa como tema: os repórteres, os editores e os leitores como seus “nativos”.

Editoras: Isabel Travancas (UFRJ) e Victoria Irisarri (IDAES-CONICET/FSOC-UBA)
Prazo para submissões: 12 de agosto de 2022